You can't choose what stays and what fades away
And I'd do anything to make you stay
No light, no light, tell me what you want me to say."
[Florence + The Machine]
"The reason one writes isn't the fact he wants to say something. He writes because he has something to say." F.Scott Fitzgerald







Sabes que mais?... Vai-te lixar!
Vai, vai e foge para onde quer que disseste que ias, para esse sítio chamado longe-de-mim; deixa-me na paz provinciana do fim-de-tarde de Domingo do Bairro. Quero lá saber se estou a fazer uma cena e se toda a gente está a ver! Empurro-te, grito-te que te vás, bato-te com os punhos fechados e viro as costas. Caminho sem olhar para trás e contenho as lágrimas - vou aguentar, oh se vou, pelo menos até virar a esquina; nem sequer deixo que me vejas levar a mão à cara para limpar este rio de que és a nascente. Mais uns passos... Mais um...
Dobro a esquina e desato a correr. O meu lenço cai-me do pescoço e eu não paro para o apanhar. Não sinto as pernas, não sinto as mãos, não sinto o meu coração, NÃO SINTO NADA! Estou anestesiada pela bofetada da tua cobardia e desconsideração! Corro, corro pelas vielas emaranhadas, os meus sapatos ecoando sobre o chão empedrado, gasto e sujo, fintando os estendais pingantes de roupa branca, evitando as poças de água estagnada… Embato abruptamente no gradeamento antigo e ferrugento do miradouro e deixo-me estar assim, por momentos, semi-pendente no abismo da cidade. É tudo calmo e silencioso, visto cá de cima; tudo tão incomplexo e descomplicado. O tempo pára, enquanto estou assim, meia suspensa, mas eu sei que não é por muito tempo - o relógio vai arrancar não tarda e não vai desfazer nada do que foi ou do que é.
…Então recuo. O vento assobia-me nos ouvidos e traça gélidos caminhos na minha face; passo os dedos pelos malares, pelas bochechas, pelo queixo… tenho a cara molhada. Nem sequer me dei conta. Percorre-me um arrepio cruel, acre, corrosivo. Já não estou dormente, já sinto. Esfrego os braços. Não chega. Abraço-me, tentando que a constrição me contenha – ameaço esvair-me por entre os meus próprios dedos, feita líquido, feita água, feita lágrimas inglórias e sabor a fel. Já sinto. Odeio-te. Credo, como te odeio. E a mim. E a nós. Fazes-me mal. Vai, mas vai para longe.
Limpo a humidade da cara, e passo o lenço de papel de baixo dos olhos – tenho a maquilhagem esborratada. Puxo o cabelo para trás e respiro fundo. Está a fazer-se noite. Vou à Baixa: preciso de comprar um lenço.
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“Vive-se melhor a inventar a verdade todos os dias, dizem-me. Faz de conta que não morres. Faz lá.” - Inês Pedrosa
…faz lá. Faz-me a vontade, e faz de conta que não foste a lado nenhum. Teríamos ido a Londres por esta altura, ou ao Egipto? Ultimamente penso nisso todos os dias. Fomos adiando tanta coisa…sonhos que deixaram de ser, esperanças que já não são. Fomos adiando tudo porque íamos viver para sempre.
E depois veio aquele telefonema. O dia em que tudo começou a correr mal. O teu corpo atraiçoou-te e à criança que carregavas contigo. Nunca mais foste a mesma. Não chores, dizias. Se não chorares, eu não choro. Mas choraste. Choraste a vida que te tinham roubado, choraste o filho que partiu antes de nascer, choraste a perda de uma quimera. Ficaste mais calada. Sorrias menos. A gargalhada que contagiava toda a gente tornou-se uma raridade. A luta contra o monstro que trazias dentro esgotava-te, mas nunca te queixavas. Nem desistias. Raios te partam, eras teimosa que nem uma porta. Mas estavas a perder a guerra e agora que penso nisso, sinto que o sabias.
Porque não me disseste? Lembro-me da nossa conversa antes do fim-de-semana e de como parecias não estar a dizer tudo: no meio das coscuvilhices rotineiras, das novidades, dos updates, havia qualquer coisa mais que não conseguiste frasear. Em vez disso, perguntaste-me quando iria a Paris e disseste-me que odiavas a tatuagem que eu tinha acabado de fazer. Eu ri-me. Sempre foste do contra. Estava atrasada para o comboio e despedimo-nos à pressa. Prometi que te ligava no fim-de-semana. …Nunca cheguei a ligar.
Repito vezes sem conta “não era assim que as coisas deviam ter sido”. Cada dia é uma lembrança gritante de como não era assim que as coisas deviam ter sido. Saiu tudo ao contrário. Não sei o que odeio mais: a ti por partires e me deixares sozinha, a falta que me fazes ou não ter podido salvar-te. Porque não pude salvar-te? Eu quis, mas tu não esperaste por mim. É demasiado tarde, disseram. E eu chamei-te, e gritei, mas tu não respondeste. Já não eras. Como foi? Sentiste-te leve? Envolvida por uma tranquilidade branca e morna? O teu bebé estava à tua espera? Para onde foste? Responde lá, que mal pode fazer? Eu não digo a ninguém…
Não me deixaram ver-te. Odiei-os a todos – não perceberiam eles que tu eras minha também? Percebiam, diziam. Não me faria bem. Para o diabo com isso, com as convenções, com o que me faz bem! Eu precisava de ti, da tua mão na minha, dos teus conselhos, de te abraçar e implorar-te que voltasses… precisava de ti para ultrapassar a falta de ti, mas não te tinha! Tive que reaprender-me, perspectivar-me sem ti. Conceito da treta. Falta-me um bocado. Que se faz com isso?
Diz-me, onde está agora o teu Deus? Deixa-me falar-Lhe, quero que me responda a umas quantas coisas e quero dizer-Lhe umas quantas verdades. E inscrevê-lo num curso qualquer, daqueles que ensinam as pessoas a rever as suas escolhas e a recuperar o sentido lógico. Quero gritar-Lhe o que não posso gritar na rua, porque já passou muito tempo e parece mal. Não, na rua, com os outros, não posso gritar que me fazes falta e que dói. Mas com Ele posso e Ele deixa. E eu preciso.
Sei que me vês, à noite, quando me deito, quando fecho os olhos com muita força, e Lhe peço que te dê um passe, um visto, uma autorização qualquer - sei lá como é que isso funciona! - para me vires ver. Prometo que não digo a ninguém… Vá lá. Quando abro os olhos não vejo nada para além da silhueta desvanecida da mobília, da luz pálida e inerte a intrometer-se pelas frestas das portadas da janela. Fecho os olhos outra vez e murmuro: Vá lá, vá lá… só desta vez... E repito, uma vez e outra até adormecer. Não importa se não é hoje, ou amanhã. Não me preocupa o tempo que demore. Há-de haver uma vez. Sei que há-de haver uma vez em que vais estar lá.





Se é verdade que uma imagem vale mais que mil palavras, também é verdade que ainda não tinha usado esse "lugar-comum" neste blog. Só que andei a remexer em velhas fotos e encontrei esta relíquia... e esta foto convence-me desse cliché: hoje acredito que é possível que uma imagem tão pequena e já um pouco desbotada consiga concentrar todo o amor, dedicação e adoração de uns pais por uma filha... e pelo qual eu posso apenas estar grata.
